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quinta-feira, janeiro 19, 2006

Homenagem a Deus

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si-próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.


Caríssimos amigos e amigas,

Escolhi este pequenino trecho de um poema de Alberto Caeiro porque condensa muito do que quero falar, mas não vou me demorar explicando-o. Já dizia Mário Quintana: "Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..." Deixo para vocês o prazer de saborearem, por si próprios, estes profundos versos...

Fui incumbido pelos meus colegas de fazer uma homenagem a Deus, e que grande alegria o é para mim fazê-lo! À primeira vista, isso pode parecer um tanto quanto estranho, especialmente para aqueles de nós que não professam uma fé específica, ou ainda para os que negam a existência de Deus, objeto desta homenagem. No entanto, no discurso que ora faço, não me dirijo somente aos que crêem, mas a todos e a todas aqui presentes, sem exceção.

O Deus que venho homenagear não tem um nome, simplesmente porque Ele é muito maior do que um nome, e um nome não seria capaz de representar minimamente tudo o que Ele é. O Deus que venho homenagear não é o deus dos cristãos, não é o deus dos judeus, não é o deus dos muçulmanos, não é o deus dos hindus, não é o deus dos espíritas, não é o deus das mães e pais-de-santo... O Deus que venho homenagear não fica no céu, bem no alto, observando e vigiando tudo lá de cima, carrancudo, "mexendo os pauzinhos", pronto para castigar cada um ao primeiro erro cometido... não.

O Deus que venho homenagear é o Deus-Todo-Amor, e que só pode amar... É Aquele que está no nosso meio, e não O conhecemos... Que não se impõe, e permanece bem perto de nós como uma presença silenciosa, amiga e terna, sofrendo quando sofremos, se alegrando com a nossa alegria, chorando com as nossas dores... É o Deus que ninguém pode possuir ou usar em favor destes ou daqueles interesses; que quanto mais tentamos alcançar, mais ele se nos escapa por entre os dedos...

E por que homenagear tal Deus? Por que homenageá-lo na ocasião da minha formatura? Para agradar meus familiares e deixá-los mais felizes? Tenho certeza de que minha formatura por si só já os agrada bastante e os deixa bem felizes... Seria então para cumprir uma tradição? Ora, toda cerimônia de colação de grau que se preze tem uma homenagem a Deus, a minha não poderia ser diferente! Creio que não... Também seria, no mínimo, ingenuidade da minha parte dizer que "sem ele não estaríamos aqui", frase que me cansei de escutar em diversas colações de grau em que estive presente. Temos, sim, nossos méritos por chegar onde chegamos. Realmente, não foi Deus quem fez os nossos trabalhos, não foi ele quem ficou acordado de madrugada estudando para aquela prova complicada, não foi ele quem chorou nota com o professor, tampouco foi ele quem redigiu aqueles relatórios que pareciam impossíveis de terminar... Não, não é por nada disso, pelo menos não são estes os motivos pelos quais eu estou aqui, a proferir este discurso.

Homenageio a Deus hoje, no dia da minha colação de grau, porque é Ele quem coloca dentro de nós os sonhos... Não os pequenos e mesquinhos, mas os grandes... Grandes sonhos, grandes desejos... Sinceros, profundos... Graves! Desejos de utilizar o que aprendemos para construir um mundo mais justo e mais humano; desejos de doar a própria vida por um amigo, ou mesmo por um desconhecido; desejos de consumir todas as nossas energias em função do que acreditamos; desejos de tornar mais digna a vida dos que estão à nossa volta... Se pararmos um pouco para procurar, no silêncio encontraremos esses grandes sonhos... E cada um sabe exatamente o que sonha, o que deseja...

Dadas estas tão grandes razões, qual seria, então, uma homenagem à altura de tal Deus? Penso que cabe não só a mim ou aos meus colegas formandos, mas a cada um de nós fazer a verdadeira homenagem, não simplesmente com muitas orações, palavras bonitas ou ritos, mas de maneira especial através de atitudes concretas e das nossas próprias vidas, sendo homens e mulheres conscientes, atentos e fiéis aos nossos desejos mais profundos, e orientando todas as nossas escolhas e decisões em direção a eles.

Discurso escrito e proferido por mim na minha cerimônia "fantasia"
(não-oficial) de colação de grau, no dia 19 de janeiro de 2006

3 Comments:

  • Ficou muito show o discurso, Lucão! Gostei bastante, tanto do conteúdo quanto do estilo, mandou bem.

    By Blogger Andre, at 11:45 PM  

  • Muito bom...!!!!!

    By Anonymous Myriam, at 6:19 PM  

  • E, claro! Parabéns pela conquista, que seja o início de muitas outras (sem clichê). Deus o abençoe sempre! Abraço e paz!

    By Anonymous Myriam, at 6:20 PM  

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